quarta-feira, 22 de julho de 2009

Cinema - uma evocação do Invisível



Antes de surgir a história,


é preciso queimar os olhos com imagens, música e movimentos.



Aquilo que deveria ter permanecido secreto e oculto
veio à luz

quarta-feira, 15 de julho de 2009

quando em São Paulo tem garoa...

Mundo Pequeno,
do livro "O Livro das Ignoranças" - ed. Civilização Brasileira.
I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzamae de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiarno horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.Me disse que as coisas que não existem são
mais bonitas.

IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece.
Caminha sobre estratos
de um mar extinto.
Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra.
Certa vez encontrou uma
voz sem boca.
Era uma voz pequena e azul.
Não tinha boca mesmo.
"Sonora voz de uma concha",ele disse.
Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas.
E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam cigarras."
Conversava em Guató, em Português, e em Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premune
mmulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças.
Nascera engrandecido de nadezas.

VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.-
Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios,
não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

VI
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma
até gozar na pedra.

Manoel de Barros

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A pele é feita em camadas?



A palavra vai pra onde quando não é falada?

Aquilo que nunca é dito, fica recolhido

e gera tensão

pra pele...



Plano aberto, movimento lento dos personagens e vozes que não sabemos de onde vêm. Assim começa Hamaca Paraguaya, primeiro longa metragem após quase trinta anos de "seca" na produção cinematrográfica paraguaia. O filme mostra um casal de idosos, Cãndida e Ramon, na plantação, sentados numa rede, preparados para o descanso.
Uma camera fixa e distante não nos deixa perceber se as vozes que ouvimos estão sendo pronunciadas na cena, ou se essas vozes ecoam como rememorações do passado naquele espaço. As vozes dubladas dos personagens e a permanencia de uma plano longo e fixo provocam essa sensação de estranhamento. Hamaca Paraguaya transita entre dois tempos dos personagens, as reminiscencias do passado e a espera que se estabeleceu no presente, daquilo que ainda está por vir. A distancia entre o ponto de vista da camera e as ações que os personagens estão realizando na história arprisionam os personagens num quadro quase estático, cenas aprisionadas pelo tempo. É o som que fica responsável pela ebulição de vida no filme. Um filme de poucas ações. O tempo é o que mais importa.

temos duas vozes dos personagens principais conversando sobre algo que já se foi. Candida e Ramos estão sempre a espera, ou conversando sobre aquilo que nao está presente. Hamaca Paraguaya é um filme de espera.
Há muitos ruídos de uma natureza exuberante. Trovões e passáros agitados que anunciam a chegada de uma mudança. A utilização dos ruídos exacerba o tempo da espera dos personagens, que falam pausadamente, com uma voz dublada que parece dissincronizada, se assim podemos dizer, do tempo real dos acontecimentos. Na longa cena em que a senhora está de costas para a camera, lavando roupas no riacho e ouvimos um diálogo que com certeza não aconteceu ali. Um exemplo de montagem do som em contraponto com a imagem captada. Essa cena começa com os ruídos da natureza, do som captado durante a cena, pra logo em seguida ouvirmos um diálogo entre a senhora e seu filho. Ela sugere uma fuga, mas o filho não aceita. Os personagens não estão em cena, mas ouvimos suas vozes sobre a imagem de dona Candida e outras mulheres lavando roupas no riacho. Ao longo do filme, acontece muitas cenas onde o som aparece em contraponto com a imagem. Ao final do filme, descobrimos que todos os dialogos eram acerca do filho que não retornará mais. D. Candida aparece sentada à beira de um fogão num quintal, imóvel, segurando uma camisa, mas o diálogo que ouvimos é uma conversa entre ela e o carteiro, quando este vem anunciar a morte de seu filho na guerra , soldado Maximo Cavallero, e entregar-lhe uma camisa que foi encontrada com ele. D. Candida responde "aqui todos os homens tem quase o mesmo nome, este não é meu filho. Pra que vou querer uma camisa. Jogue isto aqui."
D. Candida renega a morte, e o destino da família é a interminável espera pela vida. O som como instrumento para revelar essa tensão da espera e a vivacidade daquilo que na imagem parece estar morto.

No fim, a chuva cai e os personagens saem de cena. Resta o barulho da chuva e dos passos sumindo.

O silêncio cerca as coisas que são realmente essenciais.

Divagações acerca de um encontro!



O nervosismo e a ansiedade por ser compreendida
demonstram muita vontade,

e muita insegurança também.
Medo de não ser compreendida, medo das idéias fugirem por aí,
de tão abstratas que são,

de nunca se tornarem realizadas,


Medo de ser compreendida, medo das idéias ficarem por aqui,

de serem realizadas e de fugirem ao meu controle..

será que é só assim que se transformam em reais?
Há um nível alto de exigência por aí,
ALTO - muitas im pli ca ções

ESVAZIADA
a sensação é que um pouco disso tudo foi expurgado
de um corpo, do meu corpo
corpo são
de saudável
de corpo

Fundição
tudo fundido

na presença do inenarrável,
o irrepresentável é aquilo que não descola,

que resta,
impregnado no corpo.

D.
3 dias antes de acontecer....

imagem: Chivo- Run Don't Walk

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Previsão para 2009



Do olhar de espanto

O novo, aquilo que destoa, incomoda, que desperta sensações

para o inesperado!

O que quebra, estilhaça e ressurge

ressignificado.

Não olhemos com ojeriza para um futuro que é tocado por dedos humanos que trazem as reminiscências do passado.

D.

31/12/2008

domingo, 28 de dezembro de 2008

Um lugar

Um lugar.
Onde nenhum. Um tempo para tentar ver. Tentar dizer. Quão pequeno. Quão vasto. Se não ilimitado com que limites. Donde o obscuro. Agora não. Agora que se sabe mais. Agora que não se sabe mais. Sabe-se somente que saída não há. Sem se saber porque se sabe somente que saída não há. Somente entrada. E daí um outro. Um outro lugar onde nenhum. Donde outrora dali regresso nenhum. Não. Lugar nenhum a não ser só um. Nenhum lugar a não ser só um onde lugar nenhum. Donde nunca outrora uma entrada. Dalgum modo uma entrada. Sem um só além. Dali donde não há ali. Por lá onde por lá não há. Ali sem de lá nem dali nem sequer por onde.


Samuel Beckett

Não lugar

Calafrios
acometem meu ser
são os muitos instantes
de aflição
ao rememorar o passado e sentir que
ao mesmo tempo que existe um pertencimento
existe uma repulsa, ou
ainda
que a repulsa vem de uma insatisfação
de anos


os anos vividos, os não vividos,
anos,
aqueles que só projetamos na nossa memória
e o guardamos a sete chaves
do medo do deslocamento
de sentir um não sentido em nada


das portas que se abrem
revelam muitas coisas secretas.

sensação estranha
estranha

sem definição exata
borrada e rasurada
de linhas que estão sendo recicladas


e o papel começa a se mostrar em branc0



aqui no não lugar
28/12/2008
foto do blog lebredoarrozal