sábado, 25 de janeiro de 2014
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Para um inverno menos gelado que o da Rússia!
E no inverno os pássaros se misturavam aos sinos dos trenós:"O que poderia ser mais agradável do que
sentar-se sozinho à beira do campo de neve e
ouvir o chilrear dos pássaros
no silêncio cristalino de um dia de inverno
enquanto, de algum lugar muito distante,
soavam os guizos de uma tróica que passava
- aquela graça melancólica do inverno russo!"
Górki, Maxim. Childhood.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Impressão funestra de uma chegada
Anotações em um banquinho de praça qualquer
Sinto o gosto e o cheiro da cidade,
cidade de terra vermelha e de vento que
entra no corpo pelo nariz e pela boca da gente
Ressecando tudo
A cabeça doe
incessantemente,
acometida por uma sensação terrosa que incomoda
uma capricorniana que tinha aprendido a pouco
a ser mais úmida
Tudo agora está mais seco
Ando vivendo profundos dissabores de securas
Estou agora
sentada nesse banquinho há mais de uma hora,
antes estava vagando há muito tempo pelo centro
vazio
Talvez tenha sido por isso que o dissabor
terroso me perfurou tanto assim
como o batom rosa choque da menina sentada dentro do ônibus
que me incomoda profundamente,
ou o excesso de placas coloridas e sem padrão
que também me agridem,
ou ainda o calor e
as pessoas suadas falando com um sotaque irritante arrastado
Penso que tudo isto está acontecendo comigo
como tudo isso está acontecendo comigo
pode ser também
a complexa combinação do dissabor terroso e das estampas bregas
e coloridas desse lugar
Sobre esse colorido brega, já me tinham me avisado
em outroras uma amiga passou por aqui
e me disse:
" Tem um excesso de cor na cidade que distõa da realidade aceitável "
lembro que falou também que nunca criaria um filho aqui
Hoje nesse banquinho
lembrei desse colorido
Um colorido permissivo demais pra se criar um filho,
que se torna agressivo e compromete a alma
Disso tudo, só venho a dizer que os tons pastéis também
me são mais apropriados.
Entro no ônibus agora,
resolvi interromper o fluxo e mudar de lugar
esse lugar que estou agora
é mais feio e sujo ainda
a terra misturada com os corpos quentes, suados e colados
uns nos outros
e eu aqui
continuo branca e gélida
Espremida, escuto um sotaque diferente
alguém que também deve se sentir fora do seu lugar
ele pode ser de qualquer outro lugar
menos daqui,
mas a voz talvez já esteja contaminada
pelos outros lugares por onde passou
Paro de pensar
resolvi, por agora.
O cheiro de suor e a fumaça do ônibus se misturam
Primeiro dia, de um mês seguido
Sinto o gosto e o cheiro da cidade,
cidade de terra vermelha e de vento que
entra no corpo pelo nariz e pela boca da gente
Ressecando tudo
A cabeça doe
incessantemente,
acometida por uma sensação terrosa que incomoda
uma capricorniana que tinha aprendido a pouco
a ser mais úmida
Tudo agora está mais seco
Ando vivendo profundos dissabores de securas
Estou agora
sentada nesse banquinho há mais de uma hora,
antes estava vagando há muito tempo pelo centro
vazio
Talvez tenha sido por isso que o dissabor
terroso me perfurou tanto assim
como o batom rosa choque da menina sentada dentro do ônibus
que me incomoda profundamente,
ou o excesso de placas coloridas e sem padrão
que também me agridem,
ou ainda o calor e
as pessoas suadas falando com um sotaque irritante arrastado
Penso que tudo isto está acontecendo comigo
como tudo isso está acontecendo comigo
pode ser também
a complexa combinação do dissabor terroso e das estampas bregas
e coloridas desse lugar
Sobre esse colorido brega, já me tinham me avisado
em outroras uma amiga passou por aqui
e me disse:
" Tem um excesso de cor na cidade que distõa da realidade aceitável "
lembro que falou também que nunca criaria um filho aqui
Hoje nesse banquinho
lembrei desse colorido
Um colorido permissivo demais pra se criar um filho,
que se torna agressivo e compromete a alma
Disso tudo, só venho a dizer que os tons pastéis também
me são mais apropriados.
Entro no ônibus agora,
resolvi interromper o fluxo e mudar de lugar
esse lugar que estou agora
é mais feio e sujo ainda
a terra misturada com os corpos quentes, suados e colados
uns nos outros
e eu aqui
continuo branca e gélida
Espremida, escuto um sotaque diferente
alguém que também deve se sentir fora do seu lugar
ele pode ser de qualquer outro lugar
menos daqui,
mas a voz talvez já esteja contaminada
pelos outros lugares por onde passou
Paro de pensar
resolvi, por agora.
O cheiro de suor e a fumaça do ônibus se misturam
Primeiro dia, de um mês seguido
Hoje faz um mês

Hoje é o dia de aniversário de um mês da despedida
um mês de frustação
um mês que aconteceu o abandono
um mês de tristeza e arrependimentos profundos
tem um mês também que as naúseas voltaram a acompanhar
a minha vida
já são 30 dias seguidos de dores de cabeça
e mais 30 dias de estranheza,
já são também um mês de constatações sobre aquilo que não terei de volta
e do sopro de vida que saiu repentinamente da minha boca
tem um mês que o buraco no meu estômago cresce mais
e um mês seguido que desprezo [quase] tudo aquilo que convivo
hoje tem um mês que percebi que não dá mais
já que tudo aquilo que era pra ficar pra trás
veio junto.
D.
domingo, 1 de novembro de 2009
Quando os sons reverberam por aí!
Agora,
nada faço além de ouvir
Ouço todos os sons que correm juntos, combinados
que se fundem
ou se sucedem,
Sons da cidade, e de fora da cidade, sons
do dia e da noite ...
[inclusive aqueles que me acompanham das cidades por onde passei]
Walt Whitman, Sounds of myself
WFAE - World Forum for Acoustic Ecology
abaixo, link do jornal do WFAE
http://interact.uoregon.edu/MediaLit/wfae/journal/index.html
nada faço além de ouvir
Ouço todos os sons que correm juntos, combinados
que se fundem
ou se sucedem,
Sons da cidade, e de fora da cidade, sons
do dia e da noite ...
[inclusive aqueles que me acompanham das cidades por onde passei]
Walt Whitman, Sounds of myself
WFAE - World Forum for Acoustic Ecology
abaixo, link do jornal do WFAE
http://interact.uoregon.edu/MediaLit/wfae/journal/index.html
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Cinema - uma evocação do Invisível
quarta-feira, 15 de julho de 2009
quando em São Paulo tem garoa...
Mundo Pequeno,
do livro "O Livro das Ignoranças" - ed. Civilização Brasileira.
I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzamae de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiarno horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.Me disse que as coisas que não existem são
mais bonitas.
IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece.
Caminha sobre estratos
de um mar extinto.
Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra.
Certa vez encontrou uma
voz sem boca.
Era uma voz pequena e azul.
Não tinha boca mesmo.
"Sonora voz de uma concha",ele disse.
Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas.
E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam cigarras."
Conversava em Guató, em Português, e em Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premune
mmulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças.
Nascera engrandecido de nadezas.
VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.-
Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios,
não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.
VI
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma
até gozar na pedra.
Manoel de Barros
do livro "O Livro das Ignoranças" - ed. Civilização Brasileira.
I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
II
Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzamae de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiarno horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas
de Corumbá.Me disse que as coisas que não existem são
mais bonitas.
IV
Caçador, nos barrancos, de rãs entardecidas,
Sombra-Boa entardece.
Caminha sobre estratos
de um mar extinto.
Caminha sobre as conchas
dos caracóis da terra.
Certa vez encontrou uma
voz sem boca.
Era uma voz pequena e azul.
Não tinha boca mesmo.
"Sonora voz de uma concha",ele disse.
Sombra-Boa ainda ouve nestes lugares
conversamentos de gaivotas.
E passam navios
caranguejeiros por ele, carregados de lodo.
Sombra-Boa tem hora que entra em pura
decomposição lírica: "Aromas de tomilhos dementam cigarras."
Conversava em Guató, em Português, e em Pássaro.
Me disse em Iíngua-pássaro: "Anhumas premune
mmulheres grávidas, 3 dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas:
"Borboletas de franjas amarelas são fascinadas
por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças.
Nascera engrandecido de nadezas.
VI
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.-
Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios,
não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.
VI
Toda vez que encontro uma parede
ela me entrega às suas lesmas.
Não sei se isso é uma repetição de mim ou das lesmas.
Não sei se isso é uma repetição das paredes ou de mim.
Estarei incluído nas lesmas ou nas paredes?
Parece que lesma só é uma divulgação de mim.
Penso que dentro de minha casca
não tem um bicho:
Tem um silêncio feroz.
Estico a timidez da minha lesma
até gozar na pedra.
Manoel de Barros
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