
quinta-feira, 23 de abril de 2009
A pele é feita em camadas?

A palavra vai pra onde quando não é falada?
Aquilo que nunca é dito, fica recolhido
e gera tensão
pra pele...
Plano aberto, movimento lento dos personagens e vozes que não sabemos de onde vêm. Assim começa Hamaca Paraguaya, primeiro longa metragem após quase trinta anos de "seca" na produção cinematrográfica paraguaia. O filme mostra um casal de idosos, Cãndida e Ramon, na plantação, sentados numa rede, preparados para o descanso.
Uma camera fixa e distante não nos deixa perceber se as vozes que ouvimos estão sendo pronunciadas na cena, ou se essas vozes ecoam como rememorações do passado naquele espaço. As vozes dubladas dos personagens e a permanencia de uma plano longo e fixo provocam essa sensação de estranhamento. Hamaca Paraguaya transita entre dois tempos dos personagens, as reminiscencias do passado e a espera que se estabeleceu no presente, daquilo que ainda está por vir. A distancia entre o ponto de vista da camera e as ações que os personagens estão realizando na história arprisionam os personagens num quadro quase estático, cenas aprisionadas pelo tempo. É o som que fica responsável pela ebulição de vida no filme. Um filme de poucas ações. O tempo é o que mais importa.
temos duas vozes dos personagens principais conversando sobre algo que já se foi. Candida e Ramos estão sempre a espera, ou conversando sobre aquilo que nao está presente. Hamaca Paraguaya é um filme de espera.
Há muitos ruídos de uma natureza exuberante. Trovões e passáros agitados que anunciam a chegada de uma mudança. A utilização dos ruídos exacerba o tempo da espera dos personagens, que falam pausadamente, com uma voz dublada que parece dissincronizada, se assim podemos dizer, do tempo real dos acontecimentos. Na longa cena em que a senhora está de costas para a camera, lavando roupas no riacho e ouvimos um diálogo que com certeza não aconteceu ali. Um exemplo de montagem do som em contraponto com a imagem captada. Essa cena começa com os ruídos da natureza, do som captado durante a cena, pra logo em seguida ouvirmos um diálogo entre a senhora e seu filho. Ela sugere uma fuga, mas o filho não aceita. Os personagens não estão em cena, mas ouvimos suas vozes sobre a imagem de dona Candida e outras mulheres lavando roupas no riacho. Ao longo do filme, acontece muitas cenas onde o som aparece em contraponto com a imagem. Ao final do filme, descobrimos que todos os dialogos eram acerca do filho que não retornará mais. D. Candida aparece sentada à beira de um fogão num quintal, imóvel, segurando uma camisa, mas o diálogo que ouvimos é uma conversa entre ela e o carteiro, quando este vem anunciar a morte de seu filho na guerra , soldado Maximo Cavallero, e entregar-lhe uma camisa que foi encontrada com ele. D. Candida responde "aqui todos os homens tem quase o mesmo nome, este não é meu filho. Pra que vou querer uma camisa. Jogue isto aqui."
D. Candida renega a morte, e o destino da família é a interminável espera pela vida. O som como instrumento para revelar essa tensão da espera e a vivacidade daquilo que na imagem parece estar morto.
No fim, a chuva cai e os personagens saem de cena. Resta o barulho da chuva e dos passos sumindo.
O silêncio cerca as coisas que são realmente essenciais.
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